Vai-se andando...
Hoje devo ter ouvido perto de duas dezenas de pessoas que ao encontar-se se cumprimentavam - sim, eu própria por vezes estranho mas ainda existem(imos) - perguntando "Como vais?" ou algo equivalente.
Quase todas ia respondendo "vai-se andando" e, uma ou outra - penso que não minto se disser que foram duas - responderam que "hoje, nada bem".
Confesso que eu, que muitas vezes não vou andando, arrasto-me por falta d eenergia ou corro por falta de tempo, fico já um pouco embaraçada com a pergunta. Não quero chocar ninguém dizendo que hoje é melhor que ontem, porque estou viva, porque a primavera está achegar, porque sobrevivi a mais um fim do mundo (desta vez o dos vikings) mas também não quero confrontálos com não menos verdade de que está tudo errado, o mundo parece não ter concerto e país está melhor mas os portugueses nem por isso.
Calma, eu sei que nem devia maçar-me, na verdade das pessoas que perguntam como estou, penso que cerca de 5% quer saber a verdade e mesmo esses não anseiam por toda, toda... enfim, lá vou respondendo com evasivo "tudo bem" ou um mais gregário "vai-se andando". Mas hoje, amigos, na biblioteca escolar onde trabalho uma uente respondeu com um sorriso na voz: "Estou muito bem, felizmente".
O "Como está?" tinha sido proferido pela Assistente Técnica que estava no atendimento e perante tal "resposta sorrida", tirei os olhos da etiquetagem que estava a fazer e não pude deixar também de sorrir ao mesmo tempo que aplicava o auto-ralhete de praxe: "Tem juízo, Carla Maria!"
Tratava-se de uma aluna do ensino noturno que deve ter uns verdes 20 anos e cuja "história" me foi contada resumidamente há dias. Há umas semanas, esta jovem, meio envergonhadamente perguntou a uma assistente ou professora (não recordo, nem é importante) se lhe podia pagar um pão com manteiga - era hora do jantar que ela não havia comido. Depois de se fazer um breve levantamento sobre as circunstâncias da simpática jovem apurou-se que pertence a uma família com grandes dificuldades, um irmão paga-lhe o passe para ela poder ir às aulas, ... e desde então leva da escola alguma da comida que provavelmente iria para o lixo ou para alguém menos necessitado.
Dirão que a assitência social não funciona (concordo), qua a aluna talvez pudesse trabalhar (improvável mas possível) que devia ter estudado quando era adolescente (pois, talvez, quem sabe)...
O que verdadeiramente me interessa é que de toda a gente que ouvi hoje responder a um cumprimento ela foi a única que disse "Estou muito bem, felizmente"
(também publicado como nota no facebook)
Enquanto as amigas suspiravam pelos cantos por uma Bimby, K sonhava com alguém que lavasse, passasse a ferro e limpasse o pó... Até podia ser uma Bimba! Enfim, uma fada do lar que lhe permitisse ser a "Professora das Histórias", ir às compras, cozinhar e ainda ter tempo para respirar...
Mostrar mensagens com a etiqueta lições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta lições. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas (...) a vida nos intervalos #170
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Ajuda o João (...) a vida nos intervalos #169
Hoje tive um furo.
Passava da meia-noite e eu vinha de um lugar mágico, do meio
de livros, escritores e um ator por outro quando dei cabo de um pneu num
buracão na Infante D. Henrique.
Quem conhece minimamente o meu mau feitio e a corrida de
obstáculos que é a minha vida, sabe o quanto isso me poderia deixar lixada… com
F, pois claro!
Mas hoje não. Hoje conheci o João.
“Se a senhora quiser eu mudo-lhe o pneu”
“Já trabalhei numa coisa de pneus, gosto de fazer isto”
O João teve medo que eu tivesse medo dele! Por isso, enquanto me ajudava ia falando e até
me disse que não ficasse nervosa.
“Eu sou o João, nasci em 1964 e não faço mal a ninguém.
Nasci no tempo do Salazar, mas deram-me educação. O meu pai só me deu muita
porrada, mas a minha tia deu-me educação.”
Há dias o João viu um fulano a tentar assaltar um fiat
punto, e chamou a polícia com o telemóvel. “Ele percebeu e deu-me duas cinturadas,
mas eu consegui desenrascar-me dele.”
… “Nasci em 1964 na Lourinhã, lá não havia nada, por isso
vivo aqui em Lisboa. Tenho uma pensão por causa deste braço, que ficou assim na
tropa e arrumo uns carritos”
O João ia para o armazém onde vive “ali um bocadinho à
frente” na sua bicicleta quando viu esta pobre representante da esquerda-lata- de- atum ter um furo e
seguiu-a para oferecer ajuda.
O João tem apenas mais cinco anos que eu, mas parecia ter idade para ser meu pai.
O João fez-me imediatamente recordar a bela história que o Afonso Cruz gosta de contar, de como Gandhi aconselhou um hindu a quem um muçulmano matara um filho a adoptar uma criança árabe para ultrapassar a sua dor.
O João voltou a montar a sua bicicleta, aparentemente satisfeito porque fez o que a educação lhe mandara.
Eu dei-lhe o dinheiro que tinha comigo “mas não era preciso…
bastava dar-me um euro para uma cerveja.”
Lisboa, 31 de outubro de 2013
Carla Flores
P.S. Obrigada pelas lições, Vida.
Já agora... se puder
ser, ajuda o João.
Subscrever:
Mensagens (Atom)